domingo, 2 de junho de 2013

Atividades texto "No aeroporto" - Carlos Drummond de Andrade



Essa foi a atividade desenvolvida no primeiro dia de curso de MGME - Jaú


Atividades texto "No aeroporto" - Carlos Drummond de Andrade


Aeroporto

Carlos Drummond de Andrade
Viajou meu amigo Pedro. Fui levá-lo ao Galeão, onde esperamos três horas o seu quadrimotor. Durante esse tempo, não faltou assunto para nos entretermos, embora não falássemos da vã e numerosa matéria atual. Sempre tivemos muito assunto, e não deixamos de explorá-la a fundo. Embora Pedro seja extremamente parco de palavras e, a bem dizer, não se digne pronunciar nenhuma. Quando muito, emite sílabas; o mais é conversa de gestos e expressões, pelos quais se faz entender admiravelmente. É o seu sistema.
Passou dois meses e meio em nossa casa, e foi hóspede ameno. Sorria para os moradores, com ou sem motivo plausível. Era a sua arma, não direi secreta, porque ostensiva. A vista da pessoa humana lhe dá prazer. Seu sorriso foi logo considerado sorriso especial, revelador de suas intenções para com o mundo ocidental e o oriental e em particular o nosso trecho de rua. Fornecedores, vizinhos e desconhecidos, gratificados com esse sorriso (encantador, apesar da falta de dentes), abonam a classificação.
Devo admitir que Pedro, como visitante, nos deu trabalho: tinha horários especiais, comidas especiais, roupas especiais, sabonetes especiais, criados especiais. Mas sua simples presença e seu sorriso compensariam providências e privilégios maiores. Recebia tudo com naturalidade, sabendo-se merecedor das distinções, e ninguém se lembraria de achá-lo egoísta ou inoportuno. Suas horas de sono — e lhe apraz dormir não só à noite como principalmente de dia — eram respeitadas como ritos sacros a ponto de não ousarmos erguer a voz para não acordá-lo. Acordaria sorrindo, como de costume, e não se zangaria com a gente, porém é que não nos perdoaríamos o corte de seus sonhos. Assim, por conta de Pedro, deixamos de ouvir muito concerto para violino e orquestra, de Bach, mas também nossos olhos e ouvidos se forraram à tortura da TV. Andando na ponta dos pés, ou descalços, levamos tropeções no escuro, mas sendo por amor de Pedro não tinha importância.
Objeto que visse em nossa mão, requisitava-o. Gosta de óculos alheios (e não os usa), relógios de pulso, copos, xícaras e vidros em geral, artigos de escritório, botões simples ou de punho. Não é colecionador; gosta das coisas para pegá-las, mirá-las e (é seu costume ou sua mania, que se há de fazer) pô-las na boca. Quem não o conhecer dirá que é péssimo costume, porém duvido que mantenha este juízo diante de Pedro, de seu sorriso sem malícia e de suas pupilas azuis — porque me esquecia de dizer que tem olhos azuis, cor que afasta qualquer suspeita ou acusação apressada sobre a razão íntima de seus atos.
Poderia acusá-lo de incontinência, porque não sabia distinguir entre os cômodos, e o que lhe ocorria fazer, fazia em qualquer parte? Zangar-me com ele porque destruiu a lâmpada do escritório? Não. Jamais me voltei para Pedro que ele não me sorrisse; tivesse eu um impulso de irritação, e me sentiria desarmado com a sua azul maneira de olhar-me. Eu sabia que essas coisas eram indiferentes à nossa amizade — e, até, que a nossa amizade lhes conferia caráter necessário, de prova; ou gratuito, de poesia e jogo.
Viajou meu amigo Pedro. Fico refletindo na falta que faz um amigo de um ano de idade a seu companheiro já vivido e puído. De repente o aeroporto ficou vazio.
Extraído de: Cadeira de balanço. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1976, p. 61, 62.

Grupo 1 – Turma 4 (quarta-feira):
Angélica Cassola
Luciana Urbano
Sônia Amorim D. Machi
Miriam Pereira Ramos
Denize Barban Salina Mario
Cristiane da Silva Alves
Antes da leitura
- Questionamento sobre se sabem o que é aeroporto? Quem utiliza? Você conhece? Já esteve em um? (utilizar conhecimento de mundo para compreensão do texto)
- O que o título lhe sugere? Que tipo de história você acha que vai ler?

Durante a leitura
Após ler os dois primeiros parágrafos:
- Você sabe onde fica o Galeão?
- Já pode identificar quem é Pedro?

Depois da leitura
- Gostou da história? Por quê?
- Você teve dificuldade de entender o significado de alguma palavra do texto? Quais? (identificar sinônimos de palavras)
- Por que Pedro se comunicava apenas através de gestos e expressões? (elaborar inferências) 
- Suas expectativas sobre quem é Pedro se confirmaram? Foi possível perceber rapidamente que Pedro era um bebê? Como? (caracterizar personagens do texto – integrar informações explícitas do texto;  pistas – marcadores linguísticos)
- O narrador participa da história? Como você sabe?
- Onde acontecem os fatos narrados?
-Quanto tempo Pedro passou na casa do amigo? Há marcadores temporais? Quais? (localizar informações – marcadores temporais)
- Você conseguiu identificar qual o gênero textual do texto? (reconhecer os diferentes gêneros e suas funções)
- O que o autor quis dizer com a frase “De repente o aeroporto ficou vazio?” (interpretar frases e expressões do texto)
- Que relação podemos estabelecer entre título e o texto? (apreender sentido geral do texto)
- Filmes: que podem ser utilizados para complementar o trabalho:
              Rio
              O terminal
              Olha quem está falando também.
- Música: Encontros e despedidas (Maria Rita)
- Reescreva a narrativa a partir do ponto de vista de Pedro.  

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